quarta-feira, 15 de junho de 2011

Cronópios, Famas e Esperanças


Conforme nos pediram, seguem alguns dos textos que estamos apresentando em FANTÁSTICO COTIDIANO:
 
Viagens

Quando os famas saem em viagem, seus costumes ao dormirem numa cidade são os seguintes: um fama vai ao hotel e pergunta cautelosamente os preços, a qualidade dos lençóis e a cor dos tapetes. O segundo se dirige à delegacia e declara, como segurança, quais os móveis e imóveis dos três, assim como o conteúdo de suas malas. O terceiro fama vai ao hospital e copia as listas dos médicos de plantão e suas especializações.
Terminadas estas providências, os viajantes se reúnem na praça principal da cidade, comunicam-se suas observações e entram no café para beber um aperitivo. Mas antes eles se seguram pelas mãos e dançam em roda. Esta dança recebe o nome de dança dos famas.
Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram, chove a cântaros e os táxis não querem leva-los ou lhes cobram preços altíssimos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem a todo mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: “Que bela cidade, que belíssima cidade”. E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados. E no dia seguinte levantam contentíssimos, e é assim que os cronópios viajam.
As esperanças, sedentárias (acomodadas), deixam-se viajar pelas coisas e pelos homens, e são como as estátuas, que é preciso vê-las, porque elas não vêm até nós.


Histórias

Um cronópio pequenininho procurava a chave da porta da rua no criado-mudo, o criado-mudo no quarto de dormir, o quarto de dormir na casa, a casa na rua. Por aqui parava o cronópio, pois para sair à rua precisava da chave da porta.




A foto saiu fora de foco

Um cronópio vai abrir a porta da rua e ao enfiar a mão no bolso para pegar a chave o que tira é uma caixa de fósforos; então este cronópio fica muito aflito e começa a pensar que se em vez da chave ele encontra os fósforos, seria terrível que o mundo se houvesse deslocado de repente, e então se os fósforos estão no lugar da chave, pode acontecer que ele ache a carteira de dinheiro cheia de açúcar, e a lista de telefone cheia de música, e o armário cheio de telefones, e acama cheia de roupas, e as jarras cheias de lençóis, e os trens cheios de rosas, e os campos cheios de bondes. Assim, este cronópio fica horrivelmente aflito e corre para se olhar no espelho, mas como o espelho está um pouco de lado, o que ele enxerga é o porta-guarda-chuvas, e suas desconfianças se confirmam e ele dasata a soluçar, cai de joelhos e junta suas mãozinhas nem sabe pra quê. Os famas vizinhos acodem para consolá-lo, e também as esperanças, mas demora muito até que o cronópio saia do seu desespero e aceite uma chícara de chá, que olha e examina muito antes de beber, não vá acontecer que em lugar de uma xícara de chá seja um formigueiro ou um livro de Paulo Coelho.


Faça como se estivesse em sua casa

Uma esperança construiu uma casa e colocou-lho um azulejo que dizia: Bem-vindos os que chegam a este lar.
Um fama construiu uma casa e não colocou azulejo nenhum.
Um cronópio construiu uma casa e seguindo o hábito colocou na entrada diversos azulejos que comprou ou mandou fazer. Os azulejos eram dispostos do maneira que se pudesse lê-los em ordem. O primeiro dizia: Bem-vindos os que chegam a este lar. O segundo dizia: A presença do hóspede é suave como a flor. O quarto dizia: Somos pobres de verdade, mas não de vontade. O quinto dizia: Este cartaz anula todos os anteriores. Se manda, malandro.


Flor e cronópio

Um cronópio encontra uma flor solitária no meio dos campos. Primeiro pensa em arranca-la, mas percebe que é uma crueldade inútil, e se coloca de joelho junto dela e brinca alegrmente com a flor, isto é: acaricia-lhe as pétalas, sopra para que ela dance, zumbe feito uma abelha, cheira seu perfume, e deita finalmente debaixo da flor envolvido em uma enorme paz.
A flor pensa: “É como uma flor!”.


Tartarugas e cronópios

Agora acontece que as tartarugas são grandes admiradoras da velocidade, como é natural.
As esperanças sabem disso e não ligam.
Os famas sabem e caçoam.
Os cronópios sabem e cada vez que encontram uma tartaruga, puxam a caixa de giz colorido e na lousa redonda da tartaruga desenham uma andorinha.

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